Por um mundo melhor
Vegetarianismo para um mundo melhor
“Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as hipóteses de sobrevivência da vida na Terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana. A ordem da vida vegetariana, pelos seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade.”
- Albert Einstein -
Sou amiúde confrontado com o porquê da minha "opção" pelo vegetarianismo. Em primeiro lugar, tenho que confessar uma grande dificuldade em senti-lo como uma opção. É algo que se tornou de tal forma basilar que alimentar-me de outro ser sensível não está sequer em consideração. Em segundo lugar, sinto que aquilo que comemos influi de tal forma no futuro da nossa espécie e de toda a vida à face da Terra que, sendo opcional – no mais estrito respeito pelas liberdades individuais de cada um, deverá, no mínimo, ser uma decisão consciente e informada. Sinto que só posso afirmar que a minha escolha é livre quando alicerçada num profundo conhecimento do que a minha opção representa. Essa opção é literalmente entre a vida e a morte. Exerçamos, então, o nosso direito de escolha. Em consciência.
Take a look at me now
ou
Um breve olhar a montante do prato
Pelos animais
"Enquanto nós próprios formos o túmulo vivo de seres assassinados, como poderemos aspirar a quaisquer condições ideais neste planeta?"
- George Bernard Shaw -
Quantos de nós teremos noção do que realmente nos chega ao prato? Gosto de acreditar que poucos. É a nossa humanidade que trespassamos a cada garfada. Os animais criados actualmente para consumo humano vivem existências de profundo e constante sofrimento, enclausurados, raramente ou nunca vendo a luz do dia, praticamente sem liberdade de movimento, numa óptica puramente lucrativa e de maximização do espaço, sujeitos a todo o tipo de privações e práticas brutais que permitam aumentar a produtividade das explorações.
As galinhas são comprimidas em edifícios que podem levar até 30.000 aves, no caso de animais para consumo da carne. No caso das poedeiras o número pode ascender a 100.000. Falamos de uma vida inteira sem poder sequer abrir as asas e sem ver a luz do dia. A iluminação artificial é controlada de forma a maximizar a produção. Estas condições deploráveis levam a que muitas aves morram de doença ou se matem entre si – ocorrem inclusive casos de canibalismo – não obstante os seus bicos terem sido parcialmente cortados (operação comum e extremamente dolorosa, pois o bico também possui terminais nervosos). As galinhas para produção de carne são feitas crescer tão rapidamente que os seus ossos e tendões são incapazes de acompanhar este ritmo, provocando inúmeras e dolorosas lesões.
O porco, um animal que em liberdade andaria cerca de 50km/dia, é criado em similar confinamento, muitas vezes em caixas metálicas onde só o acto de se deitar ou levantar requer um tremendo esforço. A base das caixas é metal ou betão o que provoca diversas lesões nas patas. Castração e corte do rabo (ambos também extremamente dolorosos) são prática corrente. Casos de canibalismo derivado de stress são também reportados.
No caso dos bovinos (independentemente de serem para carne ou leite) o registo de existências de sofrimento e privação repete-se mudando somente as particularidades inerentes à especificidade do ser em questão.
O transporte de animais é, em geral, de tal forma degradante que uma quota de perdas (eufemismo para animais que sucumbem às execráveis condições a que são submetidos) é à partida contabilizada nos custos. Quanto aos matadouros, se Dante fosse revisitado, o inferno seria bem diferente, com seres sensíveis a serem escaldados, esfolados e esquartejados ainda conscientes.
Acredito que enquanto explorarmos, torturarmos, submetermos a todo o tipo de práticas brutais e desumanas, e finalmente matarmos, outros seres sensíveis, seja por hábito, vaidade, lucro ou tradição, não nos será possível abolir as mesmas práticas entre humanos. A banalização da morte e do sofrimento traz mais morte e sofrimento, assim como a prática do amor e da compaixão nos torna seres mais compassivos. A escolha é minha. É sua. É de todos nós. Cabe-nos decidir em que mundo queremos viver e que legado pretendemos deixar aos nossos filhos. Sabemos fazer melhor, estou certo.
Pela sua saúde
"Os Homens cavam as suas sepulturas com os próprios Dentes e morrem mais destes Instrumentos fatídicos que das Armas dos seus Inimigos"
- Thomas Moffett, Melhoria da Saúde, 1600 D.C -
Não obstante a quantidade de químicos ministrada aos animais para os manter vivos até ao momento do abate, é quase garantido que numa dieta não vegana estará a alimentar-se de animais doentes, ou produtos deles derivados, assim como dos resíduos do que lhes foi ministrado. Por outro lado, o consumo de gorduras saturadas e o colesterol presentes nos alimentos de origem animal, inexistentes numa dieta vegana, estão, entre outros factores ligados à alimentação omnívora, directamente relacionados com o surgimento de doenças responsáveis por grande parte das mortes no mundo dito desenvolvido. Exagero? Vejamos alguns números, a título de exemplo, que falam por si:
Doenças cardiovasculares
- - Queda do número de doenças cardiovasculares por cada 1% de decréscimo nos níveis de colesterol no sangue: 3-4%
- - Nível de colesterol no sangue de vegetarianos comparando com não-vegetarianos: 14% inferior
- - Risco de morte por doença cardiovascular em vegetarianos comparando com não-vegetarianos: 50%
- - Nível de colesterol no sangue de veganos comparando com não-vegetarianos: 35% inferior
- -Consumo de colesterol em não-vegetarianos: 300-500 miligrama/dia
- -Consumo de colesterol em ovo-lacto-vegetarianos: 150-300 miligrama/dia
- - Consumo de colesterol em veganos: zero
Cancro da próstata
- - Risco em homens que consomem grandes quantidades de lacticínios: + 70%
- - Risco em homens com baixos níveis de beta-carotenos no sangue: + 45%
- - Risco em homens cuja dieta é abundante em alimentos ricos em licopeno: - 45%
- - Quantidade de beta-carotenos e licopeno existente na carne, lacticínios e ovos: zero
- - Risco em homens cujo consumo de vegetais crus é elevado: redução de 41%
Cancro do cólon
- - Risco em mulheres que consomem carne vermelha diariamente comparando com mulheres que consomem menos de uma vez por mês: 250% maior
- - Risco em pessoas que consomem frango quatro vezes por semana comparando com pessoas que se abstêm: 200-300% maior
- - Risco em pessoas que consomem feijões, ervilhas ou lentilhas pelo menos duas vezes por semana comparando com pessoas que evitam estes alimentos: 50% inferior
Melhores fontes de beta-carotenos: cenoura, batata-doce, inhame.
Melhor fonte de licopeno: tomate
Obesidade
- Incremento do risco de doença cardiovascular em pessoas obesas: do dobro ao triplo
- Incremento do risco de cancro do cólon em pessoas obesas: do triplo ao quádruplo
- Incremento do risco de diabetes em pessoas muito obesas: 40 vezes maior
- Crianças (EUA) com excesso de peso ou obesas: 25%
- Crianças (EUA) vegetarianas com excesso de peso ou obesas: 8%
- Crianças (EUA) que consomem os níveis recomendados de frutos, vegetais e cereais: 1%
- Crianças (EUA) veganas que consomem os níveis recomendados de frutos, vegetais e cereais: 50%
Infelizmente a lista não se fica por aqui. Similar impacto tem vindo a ser detectado em relação aos cancros da mama e do pulmão, diabetes, hipoglicemia, esclerose múltipla, úlceras, artrites, pedra no rim, hipertensão, e um nunca mais acabar de maleitas, de guerras que vamos perdendo todos os dias e que eram em muitos casos evitáveis. Conseguem imaginar os recursos consumidos pela doença e o seu combate?
A vitalidade, criatividade, espírito de iniciativa, em suma, toda uma plenitude e alegria de viver que se perdem. Conseguem imaginar o salto quântico que representaria uma redução significativa da doença, fruto
de uma melhor higiene de vida? Significaria, entre outros factores, a recuperação da dignidade dos mais idosos que poderiam contribuir com a sua experiência e exemplo para o desenvolvimento harmonioso das novas
gerações, em vez de se transformarem em fardos, tolhidos pela doença.
Pelo Ambiente e aspectos Humanitários
"Vive de forma simples para que outros possam simplesmente viver"
- Mahatma Ghandi -
"Nós não herdamos a terra dos nossos antepassados, tomamo-la emprestada dos nossos filhos"
- Ditado Holandês -
Alguns números valem mais que mil palavras …
Água necessária, em litro, para produzir 0,5 kg de alimentos na Califórnia (EUA) de acordo com especialistas do solo e água da Extensão Agrícola da Universidade da Califórnia em colaboração com consultores agrícolas:
- Alfaces e tomates: 87
- Batatas: 91
- Trigo: 95
- Cenouras: 125
- Maçãs: 185
- Galinhas: 3.085
- Porco: 6.170
- Bife de Vaca: 19.737
Para que tenhamos uma ideia mais precisa do significado destes valores basta saber que um banho diário de sete minutos durante um ano significa em média 19.684 L de água, isto é, o equivalente a 0,5 kg de bife de vaca.
Se juntarmos a isto o facto de 70 % dos cereais e milho cultivados serem para alimentar gado (EUA), que 11 kg de cereal produzem 1 kg de carne, que o trigo necessário para alimentar 1 pessoa com carne alimentaria 7 com pão e mais de 20 com sementes germinadas (Médecins Aux Pieds Nus – Canada), que a principal causa de abate das florestas tropicais (últimos grandes pulmões do planeta) é a procura de pasto para produção de gado para consumo humano, que o gado produz 130 vezes mais excrementos que a população humana e que estes dejectos vão contaminar os cursos de água e dizimar fauna e flora, compreendemos por que diversas organizações ambientais internacionais, entre elas a WorldWatch Institute, reconhecem que o passo mais importante que um indivíduo pode dar no sentido de salvar o planeta é tornar-se vegetariano.
"Que Todos Sejam Alimentados, Que Todos Sejam Curados, Que Todos Sejam Amados"
- John Robbins -
José Neves
Associação Vegetariana Portuguesa 2006
Referências:
1- Os estudos que suportam os dados estatísticos apresentados constam dos seguintes livros / publicações:
2- "Diet for a New America, How your food choices affect your health, happiness and the future of live on Earth", John Robbins
3- "The Food Revolution, How your diet can help save your life and our world", John Robbins
4- "Germinations and sprouts for all... To attain food autonomy", Médecins Aux Pieds Nus